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Sociologia .

A moda é a transmissão da civilização






    Fazendo jus à frase do título, proferida pelo célebre designer italiano Pierre Cardin, o MODA BRASIL + DESIGN procurou debater sobre este, que pode ser considerado um dos temas mais polêmicos a ser abordado nas salas de aula: moda e sociedade.

   Desta vez, o repórter fashionista Marcelo Testoni entrevistou a socióloga Adriana Martinez, dedicada à área de Filosofia e Ciências Sociais, Mestra em Integração da América Latina pela Universidade de São Paulo e docente da Universidade Anhembi Morumbi.


       Com muita propriedade, a pesquisadora contextualiza a moda sob os aspectos histórico, social e econômico, até chegar à análise desse fenômeno, que hoje reflete no que o escritor George B. Shaw considerou uma ‘‘epidemia induzida’’.


MODA BRASIL + DESIGN: Por que o século XIX é considerado o século da moda por excelência?
Adriana Martinez: Veja bem, o século XIX é marcado pelo desenvolvimento industrial e pela padronização de valores, decorrentes do modo de vida burguês. As revoluções Francesa e Industrial modificaram as relações sociais. Se, por um lado, surgiu uma população massificada sem rosto definido, por outro, irrompeu a vontade de marcar a individualidade. Somem-se ainda as características de efemeridade e mudança, próprias da sociedade moderna. Sendo assim, a moda segue essas peculiaridades. A industrialização em larga escala de roupas prontas e a busca pela mudança constante a fim de distinguir-se da massificação foi o que caracterizou este período.

MB+D: Quais autores que se destacam por suas obras dedicadas à moda neste período?
AM: Vários filósofos e sociólogos abordam de maneira direta ou indireta o tema moda. Entre eles podemos mencionar Hebert Spencer, George Simmel, Gabriel Tarde.

MB+D: Como você interpreta a análise do filósofo inglês Herbert Spencer sobre os princípios de imitação e distinção?
AM: O filósofo afirma que se imitam aqueles que têm distinção dentro da sociedade, o que dá origem à ilusão de igualdade social dentro das sociedades democráticas. A crítica tecida pelo autor também aponta para a mudança acelerada que a moda proporciona. Deve-se levar em consideração que Spencer é um filósofo da escola inglesa funcionalista que se funda em valores conservadores; portanto, ele combate o “espírito” inovador. Para ele, as mudanças propícias são aquelas que levam um longo tempo para se desenvolver. Os conservadores afirmavam que do passado deve vir uma tradição “salutar” desejada por si mesma. Desse modo, para esta teoria, a inovação é algo prejudicial a qualquer instituição social tradicional como família, propriedade, igreja, etc.

MB+D: Sob a ótica da sociologia, podemos considerar a moda uma forma nociva de consumismo?
AM: Não podemos ser radicais a este ponto. A sociologia, assim como outras disciplinas, busca compreender, sob diversos aspectos, o significado da moda, já que é uma ciência que tem como pressuposto o estudo da relação dos indivíduos e o meio social no qual eles estão inseridos. Desse modo, analisar o significado dos códigos sócioculturais e os valores neles expressos é algo que está intimamente relacionado com a moda, pois trata-se de uma linguagem que manifesta a interação ou não dos indivíduos dentro da sociedade.

MB+D: Você considera que as grandes cidades sejam as responsáveis por despertarem no ser humano essa consciência da subjetividade e conseqüentemente a individualidade?
AM: A moda é um fenômeno urbano e próprio da modernidade. Por isso, ponto de convergência da individualidade e das grandes cidades, ou seja, simultaneamente estabelece uma maneira de expressar a subjetividade e uma forma de comunicação.

MB+D: Podemos concluir, então, dizendo que é graças aos esforços das ciências humanas, no final do século XIX, que hoje exista um reconhecimento e uma importância da moda para toda a sociedade?
AM: Os estudos realizados sobre a importância da moda nas sociedades problematizam diferentes ângulos, proporcionando subsídios para compreender sua relação com múltiplas redes - relações sociais e de poder, estruturas políticas, economia, cultura, comunicação, etc.